quinta-feira, 5 de março de 2009

A verdade sobre o palmito


O palmito é um produto extrativista controverso e ao mesmo tempo pouco compreendido pelo consumidor em geral; talvez por esta razão a sua importância na preservação da mata atlântica seja ignorada por nossa sociedade. 

Na verdade, o palmito é um luxo que o homem moderno insiste em explorar predatoriamente; sua comercialização indiscriminada é uma extravagância de consumo irresponsável e tão questionável quanto o são os casacos de pele, a gordura da baleia e os enfeites de marfim.

Antes de tudo devo dizer que existem algumas espécies de palmito no Brasil e entre elas a Pupunha (Bactris gasipaes) e o Açai (Euterpe oleracea) que são naturais da floresta equatorial e já possuem algumas áreas de cultivo agrícola sustentáveis; mas o Palmito Jussara (Euterpe edulis),
que é natural da Mata Atlântica e muito importante para o seu ecossistema, sofre perigo de extinção é obtido basicamente pelo extrativismo predatório de áreas sob proteção ambiental, e é dessa esplêndida árvore que vou tratar a seguir.


Por desconhecimento da população ou interesses econômicos de máfias que exploram este mercado, o palmito ainda é tratado como alimento viável e aceito pela sociedade como tal, mas a realidade da sua extração na natureza, sua viabilidade econômica como recurso renovável e seu valor como alimento é bem outro.

Hoje ao comprarmos um vidro de Palmito Jussara nos supermercados ou nos servimos de grandes nacos nas churrascarias pelo Brasil afora é como, quardadas as devidas proporções, estivéssemos indo a um desmanche de carros roubados buscar uma peça para nosso automóvel ou mesmo comprando carne de paca (caçada ilegalmente e em perigo de extinção) ou comprar ossos moídos de tigre (na Ásia atribui-se um valor medicinal).

Não existe cultivo de palmito Jussara no Brasil que possa atender a demanda existente hoje, ape
sar de algumas  tentativas frustradas, isto porque o palmito leva cerca de 10 anos para ser colhido,o que inviabiliza o negócio, além da concorrência do palmito ilegal que pode ser vendido bem mais barato... 


Todo palmito que já comemos até hoje foi extraído de dentro da Mata Atlântica e na imensa maioria de forma ilegal. Esse corte ilegal é feito geralmente dentro das Unidades de Conservação (Parques Estaduais, Nacionais,Estações Ecológicas).

Os palmitos são cortados dentro da mata e cozidos na hora sob péssimas condições de higiene ,depois são transportados pela mata até barcos escondidos em represas ou rios, ou deixados em pontos onde serão coletados por caminhonetes no meio da noite; após chegar às fábricas, são lavados e colocados em frascos aparentemente limpos, mas podem causar vários tipos de doenças , como hepatite, botulismo, cólera entre outras.

A parte importante do palmito no ecossistema da Mata Atlântica ironicamente não é o produto que consumimos, na verdade a importância do Jussara na teia alimentar da mata atlântica está nas suas sementes, que são muito nutritivas.

Sabemos que arapongas, sabiás-unas,sabiás-pimenta(foto ao lado) tucanos, jacutingas, macucos, catetos, queixadas, veados, esquilos, cutias,pacas, antas, e outros animais da floresta consomem os frutos e dispersam as sementes do jussara pela mata. Sem a jussara várias espécies de animais podem desaparecer e vice-serva. Em alguns locais onde o palmito foi dizimado já podemos notar a ausência da fauna.

O palmito propriamente dito, que conhecemos na forma de vidrinhos rotulados com selos de qualidade questionáveis é a ponta desta palmeira onde as futuras folhas estão em formação, ou seja , são árvores de quase 15 metros de altura derrubadas para se extrair 2 a 3 quilos de palmito e estas folhas bebês só são consumidas pelo homem,e uma vez cortado o palmito ( mesmo que se deixasse o tronco) a árvore morre! Jamais brotará novamente ... não há um animal na Mata Atlântica que utilize o palmito para a alimentação como o fazemos; tal fato, não é por acaso, pois os animas têm um conhecimento empírico dos alimentos e da sua utilidade para o equilíbrio ecológico destilado por milhares de anos... já o homem não!

Como se todas as conseqüências do consumo do palmito não fossem suficientes para nunca mais comprarmos palmito Jussara, aqui vai mais um dado sobre esta importante palmeira que provavelmente vai surpreender a muitos :

O Palmito é um alimento com baixo valor nutritivo, seus únicos componentes úteis pra o organismo são fibras vegetais e alguns sais minerais,fósforo e potássio,sendo todos eles plenamente mais abundantes em outros alimentos mais baratos e viáveis ecologicamente; como exemplo , comer alface ou cebola é mais nutritivo que comer palmito.

Atualmente existe uma guerra entre os palmiteiros e os guardas-parques em todo o Brasil.

Os palmiteiros estão fortemente armados e mobilizados para extrair todo palmito possível da Floresta Atlântica. Guardas florestais frequentemente são mortos.

O corte do palmito é tão organizado quanto qualquer outro tipo de tráfico.
Sabemos hoje que os palmiteiros possuem rádios, armas e transportes mais eficientes que os dos guardas, como barcos a motor de popa ou caminhões.
Além de cortar os palmitos, muitos animais são abatidos pelos palmiteiros que já aproveitam a viagem para esse outro fim,a caça ilegal .

Palmiteiros não respeitam propriedades, dizem que o palmito é de Deus e de quem mais pegar, invadem áreas particulares , caçam o que querem, sujam o que querem, destroem o que querem e algumas vezes chegam a assaltar ranchos de veraneio; intimidam a população local que acaba sendo forçadamente conivente.

Há um tempo, ao chegarmos ao nosso rancho, dentro do que é hoje um Parque Florestal deparamos com esta cena nas fotos a seguir; não só roubaram o palmito de toda a propriedade com não respeitaram nem os palmitos de mais de 40 anos que ornamentavam o entorno de meu sítio.

Por tudo isso, se puderem escolher outro alimento na hora das compras a natureza agradece!

domingo, 1 de março de 2009

Preservar também é unir florestas!

Preservar também é  unir florestas!

 

Lembro de uma vez que  deparamos, logo pela manha  no açude  em frente ao meu rancho, com uma tilápia  comida pela metade boiando ; sabíamos que provavelmente  quem comera  a outra metade só poderia ter sido uma lontra (ariranha ); ao comentarmos com o  caboclo que fazia alguns serviços para nós  ele  disse: “ pois é, esse bicho é danado,  se não matar vai acabar com os seus peixes ...”

Quase cai de costas de desgosto! Coitado do bichinho! Claro que dissemos para deixá-la em paz ...

Sempre perguntei para os caboclos da região a respeito de bichos que apareciam por lá  e que  percebíamos  por meio de rastros e  algum sinal de sua presença como fezes, carreiros ( trilha que o bicho faz na mata) ,escutando ou vendo; a resposta  era quase sempre a mesma. “ ih ... tem bastante”.

Adicionar vídeo

Para ser justo , posso dizer que  o caboclo das antigas, conhecedor  das manhas da natureza na prática do dia a dia, manteve em sua cultura algumas regras de bom senso que os mais novos não seguem , eles respeitam  os períodos de cria e  só caçam para seu consumo,  o que  de certa forma manteve  algum equilíbrio na população destes animais no passado, mas a caça predatória , o tráfico de animais silvestres vivos, comércio de peles , carnes e outros artigos são bem mais danosos e não estão  diretamente ligados  ao homem comum do campo, são verdadeiras quadrilhas que possuem suas bases nas grandes cidades e que usam o conhecimento do  homem simples  para seu fins ilícitos .

 Para os  antigos  que já tive a oportunidade de conversar até hoje ,os animais são infinitos, eles  não conseguem entender  o tamanho do estrago que o homem já fez na natureza e que  somente alguns lugares como este , onde a vida selvagem resiste e ainda  há uma população  de animais que  se mantém saudáveis devido a extensão de terra que habitam ,  é cada vez mais raro ...  a ariranha é um caso destes.  

Quando tentamos argumentar  que  os animais estão se extinguindo eles dizem que os animais vem de longe e não acabam nunca... mal sabem eles que   o longe é muito mais perto do que imaginam e a maior parte dos resquícios da mata atlântica estão isolados  por zonas urbanas ou agrícolas; o problema é que eles não olham um mapa , como no Google Earth, para perceberem  isso e  seu costumes  e crenças persistem.

Hoje , um dos maiores fatores de pressão para a extinção de algumas espécies , além da caça  e a destruição do seu habitat, é a compartimentação  das  suas matas de refúgio .

Os  animais em regra precisam de grandes áreas  para sobreviverem, necessitam  de um espaço  viável para  poderem se beneficiar da dispersão natural  das árvores frutíferas   ou  qualquer outro alimento que ocorram no seu meio como  raízes, fungos, outros animais ou insetos.

Na sua busca diária pela sobrevivência percorrem áreas equivalentes que normalmente em um ambiente  sadio(clímax)  geram seu sustento , área esta que varia de espécie para espécie.

Muitos animais, geralmente machos, não permitirem outros da mesma espécie por perto devido à disputa por territórios de alimentação  e fêmeas; ao se compartimentar uma área da floresta , seja por uma estrada , uma represa hidrelétrica  ou uma  área urbana , a espécies ficam isoladas  e não conseguem  fazer este deslocamento vital para acomodação da população, busca de alimentos ou busca de parceiros  sexuais; mesmo que a somatória das áreas preservadas fossem o suficiente  a compartimentação impede animais de buscarem  sua sobrevivência  transitando  e procurando por áreas menos povoadas ou competitivas.

A título de exemplo, alguns pássaros da mata atlântica são essencialmente arborícolas, e se deslocam pelas copas das árvores, não  voariam em campo aberto por motivo algum , não faz  parte do seu modo de ser e uma simples estrada isolaria duas populações.

 Se querem uma dica  para colaborar com  a preservação ambiental , aqui vai :  conectem as áreas verdes! Seja por meio  de faixas protegidas entre fazendas e suas áreas de preservação legal, por meio de  matas ciliares de rios , pontes para automóveis que deixem o solo livre  com passagens cobertas  de vegetação  nas  estradas que cortam florestas, túneis  ou o que mais for possível !  a natureza agradece !